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CRÔNICA

A LÓGICA DO LADRÃO FILÓSOFO

Roberto de Sena


Tranquilamente, no confortável ônibus de turismo, algumas pessoas liam, outras cochilavam ou simplesmente aproveitavam para admirar a paisagem. Da janela via-se, a direita, o mar azul belíssimo e, a esquerda, as fachadas dos edifícios litorâneos.

De repente, um rapaz branco, de óculos,  que entrara ninguém sabe como, saca um revólver e com o dedo no gatilho começa a falar quase a maneira de um pregador.

- Senhores e senhoras, bom dia!

Desejo que a paz do senhor Jesus Cristo esteja no coração de todos e, principalmente, no meu. Como todos estão vendo tenho um revólver na mão e isso pode levar os senhores a uma conclusão apressada e equivocada de que eu estaria praticando um assalto. Longe de mim uma coisa dessa! Não é disso que se trata. De forma nenhuma. Um revólver na mão é apenas um revólver, nada mais que um revólver. Examinemos o assunto por outro ângulo: do ponto de vista filosófico este revólver deve ser visto não como uma arma mas como um símbolo do convencimento. Nada mais do que isso. Entenderam?

O rapaz falava com voz forte alcançando até as últimas pessoas sentadas no fundo do ônibus. Os passageiros encolhiam-se nas cadeiras, traumatizados com a violência urbana. Ninguém dava um pio. Silencio profundo. O ladrão filósofo continuou sua catequese:

- Feita a introdução do assunto, explico agora os próximos passos. O negócio é o seguinte: todos os senhores e senhoras vão colocar nesta sacola aqui na minha mão, os seus pertences. Pulseiras, relógios, celulares, anéis, cheques, cartão de crédito e, principalmente, dinheiro em espécie que é o que eu mais aprecio. Sem tumulto, sem nervosismo, sem empurra-empurra, com calma, na mais perfeita ordem. Esclareço aos senhores e senhoras que não precisam ter medo, não farei mal nenhum a ninguém. Sou totalmente contra a violência. Esta arma em minha mão não significa - em hipótese alguma - uma ameaça. Não é. Podem ter certeza disso. Eu não sou maluco e garanto que não vou atirar em ninguém e vocês também não são malucos e não vão querer me forçar a fazer o que eu não quero. Repito para que não paire qualquer dúvida: a arma é apenas um símbolo do convencimento. Os senhores haverão de entender. Faço apenas uma advertência. O negócio é o seguinte: Assim como não gosto de violência também não gosto de gracinhas. Aqueles que se meterem a besta e quiserem esconder os seus pertences ou se recusarem a cumprir o que estamos combinando de comum acordo, estes poderão experimentar métodos ortodoxos extremos tal qual uma coronhada na região do hipotálamo ou uma bala no córtex cerebral para melhorar o entendimento do recalcitrante. Mas dou minha palavra de que estes métodos só serão utilizados em última instância, caso, como já disse e reitero, algum espertinho se recuse a cumprir o que eu e os senhores estamos combinando juntos. Todos de acordo? Alguém tem alguma coisa contra? Quem tiver diga logo. Sou extremamente democrático, podem ter certeza disso.

Assombrados os passageiros apenas olhavam o rapaz com a arma na mão e uma sacola na outra. Ninguém disse uma palavra. O ladrão filósofo voltou a falar com serenidade.


- Ótimo! Vejo que todos estão de acordo e é nisso que reside a beleza da democracia, quando todos tem a oportunidade de se expressar livremente. Os senhores mesmo são testemunhas que apesar desta arma em minha mão tudo está sendo conduzido no mais perfeito entendimento e com muito diálogo, não é mesmo? Como os senhores podem vê, sou totalmente da paz. Detesto violência e só dou um tiro em alguém quando o sujeito não quer cumprir o que foi previamente combinado de comum acordo. Ou seja: quando não entende o significado da palavra PARTILHA e não quer entregar seus pertences. Se a gente combina uma coisa e o sujeito não cumpre, ele tá querendo o que? Bala na cara, é ou não é? Concordam? Fora isso podem ficar sossegados. Sou uma pessoa consciente, defensor da justiça e da cidadania. Se dependesse de mim jamais daria um tiro em ninguém e quando isso acontece - pode ter certeza - a culpa é da vítima. No entanto não vai ser preciso nada disso. Vejo que os senhores são pessoas inteligentes, defensoras da divisão de renda, da justiça social. Tenho convicção que ninguém aqui vai querer o STATUS de vítima e aparecer nos jornais com a cara desfigurada. Os senhores não me obrigariam a cometer um desatino desses. Bom já falei muito, já fiz a minha parte, agora cumpram a parte de vocês. Coloquem tudo aqui nesta sacola, do jeitinho que combinamos e depois os senhores continuarão o passeio na santa paz.

Tremendo de medo os passageiros obedeceram ao ladrão e um a um todos colocaram os pertences dentro da sacola que o rapaz tinha em uma das mãos. No final ele agradeceu

- Eu quero externar o meu mais sincero e profundo agradecimento a todos os senhores por esta demonstração de desapego aos bens materiais. Sei que os senhores tomaram esta atitude de livre e espontânea vontade e não foi por causa desta arma em minha mão, tenho que certeza que não. Que todos tenham um dia maravilhoso, divirtam-se, curtam o passeio com alegria e felicidade que a vida é muito curta. Que a paz do senhor esteja com todos os senhores. Muito agradecido pela educação, pelo entendimento e pela atitude dos senhores. Passem bem. Fui.

O ladrão saltou do ônibus, tomou um táxi e sumiu na confusão da cidade grande.
CRÔNICA CRÔNICA Reviewed by Mural do Oeste on segunda-feira, maio 04, 2015 Rating: 5

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