UM COMPRIMIDO ANTES E OUTRO DEPOIS DA ELEIÇÃO
Roberto de Sena
Foi em Santa Rita de Cássia nos anos 70. Um médico, cujo nome não vou citar, candidatou-se a prefeito. Desde aquela época Santa Rita era - como ainda é hoje - a cidade da região onde a política é mais acirrada. O povo respira política o ano inteiro.
Pois muito bem.
O médico-candidato andava atarefado atendendo aos eleitores, candidatos vereador, cabos eleitorais, no lufa-lufa da campanha. De repente uma mulher chega em sua residência e pede uma consulta e um remédio.
O médico a atende.
Em meio ao tumulto de eleitores faz o exame e dá a receita para ela comprar o remédio.
Naquele tempo nada era proibido. A lei eleitoral era muito diferente. Candidato podia fazer o que bem entendesse para ganhar a eleição.
A mulher agradeceu ao médico e saiu levando a receita para comprar o remédio. O plano dela era ir procurar o adversário do médico e pedir o remédio. Assim ela não gastaria nada. Isso é normal acontecer. Quase todos os eleitores utilizam esta tática. Pedem uma coisa a um e a outro.
Antes porém a mulher resolveu passar em casa e pediu ao filho que lesse a receita. O rapaz, leu e tomou um susto.
- Oxente minha mãe que negócio é esse que tá escrito aqui nesta receita?
- O que foi meu filho?
- Minha mãe o médico escreveu aqui na receita que é pra tomar um comprimido antes e outro depois da eleição. Isso não tá certo. A eleição é daqui há dois meses. Não existe remédio que faça efeito com um intervalo de dois meses. Isso tá errado. Vamos voltar ao médico para saber se é isso mesmo ou se houve algum engano.
E lá foram os dois a casa do médico candidato a prefeito. Chegando lá a casa estava cheia de eleitores, cada um querendo uma coisa. O médico suava em meio aquele turbilhão, aquele mar de pessoas. Na frente da casa, havia cavalos amarrados em árvores, jegues, gente tomando cachaça e foguetório espocando a todo momento. Em Santa Rita soltar foguetes é uma tática para amedrontar o adversário. Quem solta mais foguete o povo logo diz "fulano tá forte, vai ganhar, cê viu o tanto de foguete que o homem soltou? Deixou os adversários tudo descachimbados".
É neste clima que a dona de casa encontra o médico-candidato.
- Já tomou o remédio? pergunta ele com medo que ela fosse fazer outro pedido.
Ela prontamente responde.
- Não doutor. Meu filho disse que a receita tá errada.
- Errada?
Estranhou o médico.
- Isso mesmo - confirmou a mulher.
- Eu nunca passei uma receita errada em minha vida. Me dê aqui essa receita, deixa eu ver.
A mulher entregou o papel ao médico. Ele botou os óculos e leu com a atenção que o momento permitia e mesmo assim, ficou perplexo ao descobrir o que havia escrito.
"Minha nossa senhora" exclamou o médico levando as mãos a cabeça. Isso é que dá médico entrar em política e ficar passando receita em tempo de eleição."
- O que foi doutor?
- Minha senhora, me desculpe, é que eu ando tão apoquentado com a campanha que acabei trocando as bolas. Eu botei aqui na receita para a senhora tomar um comprimido antes e outro depois da eleição. Não é isso não. Pelo amor de Deus. É um comprimido antes e outro depois da refeição. Depois da refeição. Depois da refeição entendeu bem? Depois da eleição quem vai ter que tomar comprimido sou eu.
HISTÓRIAS POLÍTICAS DO OESTE BAIANO
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sábado, junho 14, 2014
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