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O URUBUZÉ FINGE QUE É GAY

POR ROBERTO DE SENA


Depois de ter jantado o jumento e almoçado a raposa, o urubuzé acordou e antes de escovar o bico já foi imaginando uma nova artimanha para ter o que comer naquele dia. Logo cedo a esposa do urubu, a urubua, o inquiriu de mau humor.
- Nossos dois filhos estão chorando de fome, não tem café da manhã. Que espécie de urubu é você que deixa os filhos com fome?
Urubuzé, balançou a cabeça, sacudiu as asas e tentou acalmar a urubua
- Querida tenha um pouco de paciência. Você sabe muito bem que eu estou fazendo o que posso! Inventei esse negócio de ensinar os bichos a voar só pra descolar o rango pra nós e nossos filhos. Só que a situação ta cada dia mais difícil, a chuva não para, o pasto ta alto, os bichos tão todos gordos e bem de saúde. Ninguém morre. Tá uma crise danada. Se eu não fosse um urubu esperto, com muito jogo de cintura e criatividade não conseguiria alimento para nossa família.
A urubua, como todo fêmea, não quis nem saber da história.
- Isso não é problema meu! Alimentar os filhos é tarefa do macho. Você é macho ou é um saco de batatas? Se vire! Dê seus pulos! Trate de ir a luta e só volte aqui com uma carniça saborosa pra gente comer.
Urubuzé saiu de casa retado da vida. “Nunca vi bicho tão insensível como a fêmea, quando ela quer uma coisa, você tem que dar de qualquer jeito” pensou ele. Abriu as asas negras e voou para um ponto estratégico da mata de onde poderia observar melhor o movimento dos outros animais. Foi neste momento que ele viu, embaixo de um pequizeiro, um veado flanando por aquelas bandas.
Urubuzé, imeditamente, maquinou uma idéia e tratou de colocá-la imediatamente em prática. Primeiro passou batom no bico, depois botou uma peruca, uma bolsa, uma mini-saia e óculos escuros. Feito isso desceu para onde estava o veado catingueiro e foi logo puxando conversa.
- Ola colega – disse Urubuzé
O veado olhou espantado
- Colega? Desde quando urubu é colega de veado?
O urubuzé, usando de toda a sua artimanha, explicou
- Desde agora. (colocou as asas nos quadris e caprichou no rebolado) Sabia que eu também sou?
- É o que?
- Sou gay (O urubuzé disse isso e saltitou como se fosse uma bailarina)
O veado não escondeu a surpresa
- Um urubu gay!? Eu nunca ouvi falar que existisse urubu gay! Tô passado!
- Pois existe mulher (O urubu falava de forma afetada com as asas nos quadris) – Olhe, o que mais existe no reino dos urubus são urubus gays, só que são todos enrustidos, não tem coragem de assumir. Eu como não estou nem ai para a língua do povo, sair do armário, o que eu quero é ser feliz e não importa o que os outros falem. Que se danem.
- E como os outros urubus encararam sua homosexualidade?
- Olha foi um bafafá entre os urubus. Enfrentei uma barra querida, fui expulso da minha comunidade. Não há violência pior do que a discriminação, seja de raça, de sexo, de religião, de ideologia política, tudo dá no mesmo e parte do mesmo principio bestial da ignorância, da truculência e da arrogância.
O veado gostou das tiradas filosóficas do urubu. Até que enfim encontrara alguém com capacidade de entender as opções sexuais de cada um
- Ce não quer formar uma dupla comigo, amigo veado ou devo chamá-lo de amiga?
- Chame de amiga, sinto-me mais identificado com o meu lado feminino. Mais que tipo de dupla? Se for uma dupla sertaneja não dá certo, você sabe muito bem, querida, que veado não sabe cantar.
- Oxente Mulher! Não é dupla sertaneja! Urubu também não sabe cantar. É uma dupla para fazer peformance em circos, teatros e casas de espetáculos. Dá pra gente ganha um bom dinheiro.
- Que idéia maravilhosa amiga urubu. Já posso imaginar o teatro municipal do Rio de Janeiro com uma grande placa luminosa anunciando ESTREIA HOJE O GRANDE ESPETÁCULO O VEADO E O URUBU GAY. Pode ter certeza que será casa cheia, ficaremos em cartaz durante anos. Chamaremos o Gerard Thomas para ser o diretor do nosso espetáculo e ficaremos ricos, muito ricos, ricos e famosos.
- Exatamente querida veado – disse o urubuzé vibrando com a idéia – contribuiremos inclusive para diminuir a discriminação sexual no mundo.
O urubu, com seu jeito matreiro, ciscou de lado e argumentou
- Só vejo um pequeno problema para o nosso plano dar certo..
- Que problema mulher? Perguntou o veado
- É que pra fazer esse tipo de espetáculo a gente precisa treinar as performances, por exemplo; em um circo teremos que fazer apresentações no trapézio, que é alto e muito perigoso.
- E você tem medo disso mulher?
Perguntou o veado
- Não, eu não, minha preocupação você veado. Ce tem que treinar muito.
- Mas eu só ótima para saltar!
- O problema não é saltar, é voar
- Voar?
- Exatamente. Pra o nosso espetáculo dá certo, você tem que aprender a voar
- E veado voa?
- Claro, se você vê em Paris, em Nova York, os veados que menos andam, voam. Se não voar, não ta com nada, ta fora de moda, é discriminado, não arruma nem pro sal.
- É mesmo? Então não temos como fazer o nosso espetáculo porque eu não sei voar
O ubrubuzé mais do depressa apresentou a solução
- E isso lá é problema. Eu estou aqui pra quê?
- Você me ensina a voar?
- Claro que lhe ensino e lhe garanto; é mais fácil do que arrumar um namorado.
- Nem me fale, eu to há muito tempo sem ter um
- Pois agora você arrumará, quantos quiser. Veado quando voa vira galâ de cinema.
- Mas eu não tenho asas, como é que eu vou aprender a voar
- Já vi que você ta desinformada das coisas. Nós gays não podemos ser desinformados. Informação é tudo. Asa é só um enfeite. Vou lhe dar alguns exemplos. Balão tem asa?
- Não
- E balão voa, não é verdade? Papel tem asas?
- Não
- e Papel voa, não voa?
- outro exemplo: Helicóptero tem asas?
- Não
- E voa, não voa? Mais um exemplo pra encerrar: fumaça tem asas. Não tem e voa não voa? É o mesmo principio, é uma questão de técnica e treinamento. Sabe quanto tempo um helicóptero treina pra voar. Mais de um ano. Depois é que o bicho aprende a voar sem ter asas. O mesmo acontecerá com você.É só acreditar, a força mora em você, este é o segredo da vida. Topa aprender a voar?
- Claro que topo – disse o veado alegremente.
- Então vamos ali pra pista, acompanhe o que eu vou fazer e depois é só você fazer o mesmo.
O urubu esperou aparecer uma carreta em alta velocidade. Colocou-se no meio da pista. O motorista da carreta ao ver aquele bicho estranho de batom, mini-saia, óculos, peruca loira pensou que fosse o efeito do arrebite que ele tinha tomado para não dormir. Ficou mais encabulado ainda quando chegou bem perto e o bicho abriu asas e voou. “Nunca mais tomo arrebite, já to começando a ver coisas estranhas” disse o carreteiro se benzendo.
O urubu foi lá na alto e, depois de alguns minutos, retornou, suave e elegante. O veado estava embascado com a facilidade do bicho voar.
- Viu como é fácil? Agora é sua vez. É só ficar no meio da pista, esperar vir uma carreta ou um ônibus da ENTRAM ou da REAL EXPRESSO e o impulso e o deslocamento do ar farão você subir mais alto que as nuvens. Depois é só bater as patas que elas automaticamente funcionam como se fossem asas. Pode ir que não tem erro. Lembre-se os grandes teatros do mundo nos esperam.
Lá foi o veado para a pista. A carreta surgiu em alta velocidade. O veado estava tão confiante na palavra do urubu que nem tentou correr. Tomou uma trombada gigantesca, foi lançado há mais de 50 metros de distância. Caiu despedaçado. O motorista da carreta parou o veiculo e desceu para pegar o veado e fazer um arroz de carreteiro. Chegou tarde. Já tinham um urubu, a esposa do urubu e dois urubuzinhos de bico dentro. “Zorra, que bichos ligeiros, chegaram primeiro do que eu” disse o motorista retornando para a carreta.
O uburuzé só não contava com uma desagradável surpresa. Durante o tempo em que ele estivera de batom, de mini-saia, com uma peruca loira, conversando com o veado, um urubu fofoqueiro e metido a moralista, ficara escondido observando. Não deu para ouvir a conversa mas teve certeza que urubuzé era gay e que inclusive tinha um caso com o veado. Dentro de pouco tempo a notícia chegou ao reino dos urubus e provocou um grande bafafá. Isso é assunto para a próxima crônica.


O URUBUZÉ FINGE QUE É GAY O URUBUZÉ FINGE QUE É GAY Reviewed by Mural do Oeste on segunda-feira, janeiro 17, 2011 Rating: 5

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